As nossas claques
Estive no pavilhão, vibrei com os golos, confirmei que ninguém pára o Benfica e que o futsal é hoje a modalidade rainha do Benfica. Por ter estado no pavilhão, não me julgo mais benfiquista que outros que não estiveram. Acho até que a simples alegação de que ter estado no sítio certo, ontem à noite, à hora certa, pretende ser uma exibição de autoridade moral sobre os outros, não é uma prova de benfiquismo, é, pelo contrário, o sinal de um maniqueísmo que, infelizmente, divide actualmente o Benfica e os benfiquistas.
Parece que anda tudo, por estes dias, num estranho e compulsivo concurso de benfiquismo, deixando perceber, pelo caminho, uma falta de respeito pelos outros, que, francamente me aborrece. A mim não me interessa que o Bruno Carvalho, ou o Veiga, ou o APV, ou outros benfiquistas não estivessem no pavilhão. Isso não faz deles menos benfiquistas do que eu, apenas porque eu estive no pavilhão e eles não.
Este é o actual estado de balcanização do clube. E que, infelizmente, não vai parar. Pelo que me vou apercebendo, tristemente, é que o actual e latente estado de guerra civil no clube, ainda está no seu início. A direcção, porque é autoritária e autocrática, comportando-se como dona do clube e dos benfiquistas, e alguma oposição que dificilmente perceberá que o Benfica não é um instrumento de vingança sobre ninguém.
A minha tentação é a de fugir deste espectáculo todo. Refugiar-me nos blogues, no estádio e nos pavilhões. É o Benfica que me interessa. Eu gosto de ver o Benfica jogar no campo, não me interessa tanto o Benfica que se joga nos tribunais, com providências apresentadas como se fossem “Saviolas” jurídicos que reforçam, não o Benfica, mas um impulso macabro de auto-satisfação acima da satisfação colectiva dos benfiquistas.
Por isso, nesta altura, tanto se me dá Vieira, como Quaresma ou Carvalho. Todos eles são culpados deste ambiente enjoativo. Um porque recorreu à pirataria estatutária e mexeu, por interesse pessoal, na normalidade eleitoral do clube, os outros, porque recorrem à pirataria jurídica, que pode prejudicar o clube, mesmo não prejudicando os seus interesses.
E no meio, estão os adeptos, porque quem toda esta gente vai demonstrado uma total falta de respeito. O que interessa é o seu voto, não é o seu benfiquismo.
Foi nisso que pensei, ontem à noite, no pavilhão. E senti inveja de quase todos. Inveja do seu desconhecimento, inveja do seu benfiquismo puro que ignora os meandros de um outro Benfica subterrâneo, onde o poder é, mais do que um sonho colectivo, uma luta sem quartel que vai continuar a dividir os benfiquistas.
E por isso, foi, de facto, um grande espectáculo no pavilhão e aquele ambiente fez-me recuar uns anos, até ao ponto em que num dos antigos pavilhões do Benfica cheirava bem, cheirava a Lisboa, com a fabulosa equipa de basquetebol a arrastar atrás de si, milhares de benfiquistas. Em algumas ocasiões, cheguei a ir do Porto a Lisboa para ver esses palpitantes jogos e ver um pavilhão completamente cheio, como o de ontem.
A vitória soube muito bem, a chegada dos jogadores do futebol profissional, sobretudo Saviola, foi uma boa medida, a presença de Jorge Jesus, a confirmação do seu actual compromisso com o clube, o hino de Luís Piçarra, como sempre, deixa-me com pele de galinha. Mas acima de tudo gostava de deixar o meu reconhecimento às claques. Esta época, estive em vários jogos das modalidades, em especial o decisivo Benfica-Sporting, em andebol , e já tinha ficado com a mesma sensação. Ontem confirmei. Adoro o seu espectáculo.
Façam o que for preciso, legalizem-nas, envolvam-nas, apoiem-nas, mas não acabem com elas. Um espectáculo dentro de outro espectáculo. Impressionante o seu apoio. Dizem-me que tem gente pouco interessante? Meus caros, gente duvidosa e pouco interessante é fácil de encontrar, dentro e fora das claques, dentro e fora do Benfica. Existe em todo o lado. O que é difícil é dar o apoio ao Benfica que elas dão. Do primeiro ao último segundo. Claro que as claques também devem ajudar, elas próprias devem separar o trigo do joio. Mas se querem saber, não olho para as claques como o joio do Benfica, enquanto o trigo floresce em todo o restante espectro dos adeptos do clube.
Isso não é correcto e não é verdadeiro. Eu sei que esta não é uma posição politicamente correcta, mas gosto do colorido das claques, gosto da sua irreverência, gosto da sua paixão. Não gosto dos seus excessos. Mas, pesando uma coisa e a outra, as claques são fundamentais para o clube. E para as nossas equipas. E para os nossos jogadores. Ontem, o seu espectáculo foi, mais uma vez, demonstrativo. Toda a gente vai a reboque dos seus cânticos, dos seus tambores e das suas palmas. A cada incitamento, tudo começa e tudo acaba nas claques.
Desde que eliminem os seus excessos, desde que deixem os petardos à porta, desde que sejam ordeiros e desde que sejam respeitadores, os adeptos das claques são cruciais e são Benfica. E sobretudo, a garantia de que as nossas equipas e o nosso clube podem sempre contar com eles.
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